Críticas Por Matheus Fiore | Publicado em 10/03/2017
Crítica | Logan (2017)

Antes de mais nada, há de se destacar: não, Logan não tem que disputar o Oscar de 2018, muito menos vai revolucionar o cinema blockbuster. Não é, nem de longe, uma obra-prima, nem estamos diante do maior filme de ação da década. Dito isso, é justo afirmar: depois de dois longas de gosto duvidoso e aparições bem prejudicadas na franquia X-Men, Hugh Jackman consegue em Logan, terceira obra solo do mutante, dar aos fãs e ao personagem uma conclusão digna para a saga de Wolverine em um bom filme.

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Acompanhamos o universo X-Men em um momento diferente, no ano de 2029. Quase todos os mutantes desapareceram. A ambientação próxima à fronteira do México, estabelecida pela paleta de cores amarelada, ajuda a dar uma roupagem pós-apocalíptica muito adequada para o primeiro ato. Logan vive uma vida “tranquila”, trabalhando como motorista e vivendo escondido com professor Xavier (Patrick Stewart) e Caliban (Stephen Merchant), um mutante capaz de farejar outros mutantes que ajuda o protagonista a cuidar de Xavier. A vida de Logan muda quando o personagem é obrigado a cuidar de Laura, jovem mutante que é perseguida por um grupo “militar” liderado por Donald Pierce (Boyd Holbrook, de Narcos).

Bem diferente de todos os filmes da gigantesca e confusa franquia mutante, Logan já mostra suas credenciais na abertura. Além da ambientação árida e sem vida bem fotografada da fronteira dos Estados Unidos com o México, algumas escolhas da cinematografia destacam o filme de qualquer outro de heróis. Observe como, principalmente nas cenas noturnas, não há uso exagerado de iluminação externa para construir a mise-en-scene. A luz é quase sempre diegética, proveniente de letreiros em neon, luzes de carros e de lâmpadas do ambiente, resultando em personagens quase sempre divididos entre luz e sombra, algo que simboliza bem a natureza de alguns deles.

O resultado de tal escolha fotográfica é nítido: Logan possui, desde o princípio, um ar muito mais soturno e realista, muito propício para a entrada de outro elemento raro em filmes baseados em gibis: a violência extrema explícita. Por agora ter em mãos um roteiro de filme com censura máxima, o diretor James Mangold acertadamente registra todas as cenas de ação com poucos cortes e planos contínuos, fortalecendo mais o tom sombrio que permeia o filme pela manutenção das mutilações e sangue jorrando que pintam a tela de vermelho.

O roteiro de Logan é muito eficiente na primeira metade do filme. Estabelecendo bem seus personagens principais como figuras carregadas de traumas e arrependimentos, é fácil identificar-se com a fragilidade de Logan e Xavier. A fraqueza dos personagens não está presente só no emocional, mas na postura física deles. O protagonista, por exemplo, não consegue extrair completamente uma de suas garras, enquanto Xavier, demonstrando total descontrole emocional e até alguns sinais de demência, está mais curvado e atrofiado que nunca.

É fácil ver, então, o que motiva Logan e Charles a embarcarem na saga de Laura para ajudá-la a chegar à fronteira dos Estados Unidos com o Canadá. Tendo décadas de história, perdas e dores nas costas, os mutantes vêem na menina a chance de redenção, um último bom ato como legado para encerrar suas tristes e melancólicas vidas, que no meio de altos e baixos, tiveram em uma misteriosa tragédia os sorrisos ceifados definitivamente.

No meio da projeção, porém, Logan começa a perder fôlego. Algumas repetições tornam a obra pouco criativa e o excesso de coincidências e ferramentas narrativas pouco criativas começam a tirar o brilho do filme. Mesmo que empolgue por seu simbolismo na vida de Logan, o elemento inserido na batalha da fazenda é extremamente óbvio e digno dos piores momentos do personagem ao longo dos anos, lembrando o “Robô de Prata” de Wolverine: Imortal. É inadmissível que diante de um personagem com mais de 40 anos de história, os roteiristas não puderam achar um personagem mais adequado para antagonizar o filme.

O erro maior, porém, está na dificuldade de Mangold para extrair emoção de seus atores. Hugh Jackman já se provou um ator com recursos ao longo de sua carreira, mas aqui, a obra aproveita apenas seu vigor físico e olhar melancólico, perdendo a oportunidade de dar maior sensibilidade ao personagem em momentos chave do filme. Como exemplo podemos citar uma das cenas mais tristes, quando o mutante protagoniza uma cena que é arranjada com uma péssima alternância de planos que mostra tal momento triste sob a ótica de Laura, dando um olhar frio e distante para o acontecimento, fazendo com que, inclusive, o que deveria ser um momento de dor se torne um alívio cômico.

O ideal para imprimir peso ao acontecimento seria, ao invés de construir tal passagem com um tom cômico (que mesmo que involuntário, é nítido graças aos atos de Logan), conduzir com poucos diálogos e poucos movimentos, usando planos close-up, que ressaltariam a dor do personagem, dando mais espaço para Jackman atuar e tornando a cena mais pessoal, possibilitando que o público sinta melhor o impacto do ocorrido. Tal erro é imperdoável para um filme que se propõe a ser intenso, em uma cena que exigia tal peso dramático.

Voltando às qualidades do longa, podemos enaltecer a lindíssima cena do diálogo entre Logan e Laura na floresta, que poderia, inclusive, ser o mais belo de toda a gigantesca franquia X-men, mas que também acaba prejudicado pela péssima e frágil escolha do roteiro ao permitir que Laura comece a dialogar com os outros no meio do filme, um recurso que obviamente só existiu para possibilitar o andamento da trama naquele ponto. Se a personagem fosse muda por toda a metragem do filme, o impacto de suas falas finais seria indiscutivelmente maior. Aliás, a manutenção do silêncio por todo o filme seria ainda mais simbólico, mas exigiria uma coragem que o filme demonstrou não ter.

O curioso é que, a partir do momento em que Laura passa a comunicar-se com Logan por palavras, espera-se que o relacionamento deles seja aprofundado, para criar-se uma mais densa relação “pai e filha”. Não é o que acontece. Não vemos ensinamentos, não há nada que Logan ensine a Laura, não há aprendizado por parte da jovem mutante com sua figura paterna. Aliás, é perceptível a situação contrária, a menina cuidando do centenário mutante. Uma grande chance de dar profundidade emocional ao personagem que foi totalmente desperdiçada.

Cabe enaltecer a fantástica trilha musical de Marco Beltrami, capaz de aumentar a densidade do filme por meio de acordes prolongados e um piano simples, que repete poucas notas, como se estivesse confuso (justamente como seu protagonista). O clima construído pela música e pela edição de som, que destaca cada pequeno ruído emitido pelos combates e movimentos de Logan, ajudam a estabelecer a fragilidade do mutante, assim como o excelente trabalho de maquiagem, que expõe suas feridas e dão humanidade à figura do outrora “imortal”.

Tal fragilidade, infelizmente, acaba sendo irregular, pois no próprio filme Logan ao mesmo tempo mantém a perna manca por toda a metragem (uma escolha excelente da composição física de Jackman, aliás) e consegue expelir balas de seu corpo. O pior é constatar que tal incoerência poderia ser corrigida cortando pouquíssimos trechos do filme, como a cena em que Logan se recupera de um tiroteio na pia do banheiro.

No fim das contas, Logan é um ótimo filme de ação, mas que se sabota com escolhas pouco criativas do roteiro e pela incapacidade de Mangold de construir a dramaticidade necessária em alguns momentos de seu filme. É, porém, louvável que tenhamos, logo depois de Deadpool, mais um filme que ao menos tenta fugir das fórmulas tão repetitivas dos recentes filmes de super-heróis. Aliás, de herói, Logan não tem nada. Felizmente, aqui vemos um filme sobre busca por redenção e paz interior, em um personagem que se mostra tão falho e frágil quanto qualquer ser humano.

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