Sem categoria Publicado em: 19/10/2015 Às 7:01 AM
Crítica | Beasts of No Nation
Redação
Crítica | Beasts of No Nation (Reprodução)

Dirigido e roteirizado por Cary Joji Fukunaga. Com: Abraham Attah, Idris Elba, Kobina Amissah-Sam, Ama K. Abebrese, Francis Weddey, Emmanuel Nii Adom Quaye, Annointed Wesseh, Kurt Egyiawan, Teibu Owusu Achcampong.

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Nos primeiros minutos de Beasts of No Nation, a carcaça de um aparelho de televisão é colocada diante da câmera e, no espaço antes ocupado pela tela, vemos um grupo de garotos jogando futebol alegremente. Trata-se de uma imagem sugestiva ao tratar aqueles instantes de brincadeira despreocupada como algo fantasioso, irreal, já que além dos limites da tela há uma guerra civil dominando o país e que se encontra prestes a interferir de forma definitiva na vida daqueles meninos. Mas igualmente importante é perceber que quando uma cena similar surge no terceiro ato, mas agora enfocando um jogo visto entre os batentes de uma porta, a rima criada está comunicando ao espectador que, embora possamos ter nos iludido, nada mudou de fato na existência daquelas crianças.

Primeiro longa de ficção produzido pelo Netflix a ser lançado comercialmente nos cinemas norte-americanos (um modelo de produção que, por si só, pode estabelecer seu lugar na História da mídia), o filme nos apresenta a Agu (o formidável estreante Attah), que, morando com os pais e os irmãos num país africano jamais identificado, vê seu cotidiano ser completamente alterado quando um golpe militar leva a uma eventual guerra civil, mantendo a maior parte da população no fogo cruzado entre militares e rebeldes. Capturado por estes últimos, o menino passa a ser treinado pelo batalhão liderado pelo Comandante (Elba) a fim de se transformar em mais um dos “soldados” pré-adolescentes que se tornaram tão comuns no continente.

Escrito pelo diretor Cary Joji Fukunaga (da primeira temporada de True Detective) a partir do livro do nigeriano Uzodinma Iweala, Beasts of No Nation não se preocupa em separar os dois lados do conflito, jamais explicando as ideologias por trás de cada grupo, o contexto no qual se formaram e como chegaram até aquele ponto – uma decisão acertada, pois, para indivíduos como o pequeno protagonista, não há separação de fato, já que são apenas elementos descartáveis de uma luta contínua pelo poder por parte de figuras que provavelmente nunca irão conhecer. Assim, basta sabermos que Agu, membro de uma família amorosa e que conseguia experimentar os prazeres da infância mesmo em circunstâncias difíceis (um dia a dia que a fotografia do próprio Fukunaga retrata em uma paleta apropriadamente calorosa), acaba se convertendo em personagem de um cruel e impiedoso filme de guerra.

Esta mudança – e que comprova que ambos os lados do confronto são igualmente tenebrosos – surge na figura do líder rebelde vivido por Idris Elba, que, por sua vez, aprisiona Agu depois que a família deste é massacrada pelos militares. Surgindo como uma visão absurda no meio da selva com sua camisa aberta, a bermuda bege, um lenço amarelo em volta do pescoço, óculos arroxeados cobrindo os olhos e a boina cuidadosamente torta sobre a cabeça, o Comandante é instrumental na doutrinação e no treinamento do menino – num processo que o filme acompanha em detalhes. Combinando a demonização sistemática dos inimigos, promessas de riqueza, conforto e prestígio, um sistema de recompensas que inclui refeições apenas para quem cumprir certas tarefas e, claro, drogas que mantêm os soldados suficientemente anestesiados para o horror que os cerca, esta sequência é construída pela obra com tamanha competência que a transformação gradual de Agu se torna mais do que crível, mas inevitável.

Neste aspecto, a performance de Elba é essencial: exalando carisma e dominância, seu Comandante é calculista ao se equilibrar entre momentos de rigidez e outros nos quais atrai suas presas ao levá-las a acreditar que são “especiais”, despertando a cumplicidade de suas vítimas com a frieza do predador que é de fato. E, no entanto, este mesmo ser monstruoso se revela uma mera e insignificante peça de um mecanismo maior, sendo reveladora a cena na qual se encontra com seu superior, que, usando um terninho patético de mangas curtas sobre uma camisa social, escancara a desimportância de seu subordinado (e reparem como Fukunaga usa a divisória de uma porta para criar uma barreira entre os dois homens). Desta forma, a insanidade da guerra é exposta através da constatação de que o Comandante, tolo em sua irrelevância, ainda assim é o centro do mundo para seus homens.

Seguindo o ponto de vista de Agu, cujo inglês quebrado pode ser ouvido de tempos em tempos em uma narração que, diferente do habitual, não se apresenta como uma visão posterior (e, portanto, mais sábia) dos fatos, mas como uma reflexão em tempo real tão confusa e perdida quanto o garoto, Beasts of No Nation é um longa particularmente brutal na maneira com que retrata a violência testemunhada e cometida pelo jovem protagonista – e seu rito de “iniciação” como matador é especialmente chocante em sua natureza gráfica. Além disso, Fukunaga chega a alterar, através da correção de cores, o mundo em volta de Agu na sequência que completa seu mergulho na brutalidade completa, banhando de vermelho as locações que servem de palco para sua recém-nascida monstruosidade (algo que o realizador contrabalança ao nos lembrar, minutos depois, de que estamos vendo um garoto traumatizado e profundamente carente que, no auge do torpor provocado pela violência e pelas drogas, julga momentaneamente encontrar a mãe durante um massacre).

Tocante ao enfocar a amizade entre Agu e o igualmente jovem companheiro de batalha Strika (Quaye, memorável), o filme é, em sua essência, um estudo de personagem que se dedica a acompanhar a transformação de uma criança feliz e ajustada em um monstro cujo corpo frágil se mostra capaz de promover uma destruição surpreendente – e quando vemos Agu caminhando em uma trincheira claustrofóbica, barrenta e povoada por soldados combalidos, percebemos como o menino que vendia a “TV da imaginação” se converteu num veterano de guerra com síndrome pós-traumática já aos 10 anos de idade.

E se o mar costuma simbolizar renascimento, o início de mergulho que vemos em Beasts of No Nation consegue apenas representar um breve respiro, já que não há como negar que a vida de Agu, na prática, já se encerrou antes mesmo de ter a mais remota chance de começar.

18 de Outubro de 2015

Crítica original de Pablo Villaça via Cinema em Cena.

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